Gasóleo – um inibidor de sonhos silencioso?

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Há um constante zumbido. O bater e barulheira são ensurdecedores e irritantes, largando o que parece ser uma fumaça escura para o ar. E o cheiro!? O enjoativo fumo cuspido pelos geradores em Africa são suficiente para transformar um belo dia azul num dia depressivo e cinzento. Já os vi por todo lado; negócios, casas, locais de obras e restaurantes em todos os países Africanos por onde já viajei, mas nesta particular ida ao Uganda deixou-me deveras incomodado. E todos nós sabemos o porquê do seu uso – é uma forma barata de colmatar as falhas recorrentes da rede elétrica. Foi no meio desta neblina malcheirosa que me dei conta – estes barulhentos geradores a gasóleo são também um silencioso assassino.

É minha convicção que estes estão a matar os sonhos dos donos de atividades comerciais. Empreendedores com a visão e determinação ao tentarem montar negócios quer sejam serviços, explorações agrícolas, fábricas ou outro setor, tentam espremer um razoável lucro para providenciar um decente rendimento às suas famílias e investidores e, em geral, talhar um melhor futuro e, quiçá, evoluir de start-up até a uma grande multinacional. Contudo, os sonhos dos donos destes pequenos e médios negócios em Africa estão desvanecer silenciosamente por entre o fumo e barulho do que parece ser uma solução simples e barata – geradores a gasóleo – pois não têm outra opção, ou assim o pensam.

Estes sonhos dissipam-se aos poucos devido ao elevado custo do gasóleo que os pequenos/médios negócios têm de suportar diminuindo drasticamente a sua margem de lucro. Para além de custar uma fortuna, aumentando a uma taxa (desregulada) de 10-20% ao ano na Africa Subsariana, o gasóleo gera também enormes custos sobre o meio ambiente – cerca de 1600g CO2eq/kWh elétrico gerado, o dobro do que uma central a carvão (relatório CGDEV). (Mas estes custos não são suficientes para que a pessoas o deixem de utilizar, para não referir os subsídios, portanto deixemos estas questões de lado para já)

Os custos operacionais dos geradores são elevados, não apenas da perspetiva do combustível em si mas também quando não estão a funcionar; o custo de vendas perdidas, a diminuição de produtividade, o aumento do custo de bens produzidos, etc. “Energia não-fiável leva a paragens de produção, perdas de bens perecíveis e a danificação de equipamentos sensíveis.” (Oshikoya et al, 2001 no relatório Clute Institute). Isto pode resultar até 20% de perdas nas vendas anuais em alguns países ou, pondo um custo nas falhas de energia, cerca de 0,94US$ a 3,13US$ por kWh elétrico perdido. A tabela que se segue dá-se o exemplo da Nigéria e da média Subsariana.

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Deste modo as pessoas viram-se para geradores a gasóleo devido ao seu baixo investimento inicial para colmatar as falhas de rede elétrica mas, em contra partida, a “energia gerada pode ser até cinco vezes mais o preço da eletricidade comprada à rede elétrica pública e até mesmo dez vezes mais no Malawi, África do Sul e Zambia” de acordo com relatório do Banco Mundial.

Assim, uma melhor solução urge para os atividades comerciais e sonhos dos empreendedores em Africa. Ao introduzir soluções alternativas e renováveis como o solar FV, gasificação de biomassa ou hídrica de pequena escala, até mesmo combinadas com geradores a gasóleo para formarem sistemas híbridos, pode ser uma solução flexível e acessível para manter os negócios a funcionar de forma fiável e barata a longo prazo, maximizando assim os seus lucros logo no dia #1, ao mesmo tempo reduzindo emissões de CO2 com a possibilidade de acabar com a dependência do gasóleo de vez, através das respetivas poupanças para aumentar a capacidade renovável de um determinado sistema híbrido. Um sistema híbrido solar-gasóleo por exemplo sabe quando descarregar as baterias ou quando utilizar o gerador ao mesmo tempo que o controlador determina o ponto mais eficiente de produção de energia pelos módulos solares e a carga do utilizador.

O melhor de tudo, ao contrário de geradores a gasóleo que devoram os lucros e prejudicam o meio ambiente, é que um sistema híbrido solar-gasóleo consegue fornecer energia de forma mais fiável e limpa a pequenos/médios negócios numa região em desenvolvimento estimulando assim atividades empreendedoras, crescimento e PIB. Incitamos aos negócios a tomarem a devida atenção a este problema e às suas respetivas alternativas pois por entre o air poluído, uma coisa é clara – geradores a gasóleo não são a resposta a uma rede elétrica intermitente se se pretende alcançar um negócio sustentavelmente lucrativo e uma próspera e saudável nação.

Maria Burpee

1 Comment

  • Mário RodriguesFebruary 17, 2015 at 20:55

    Muito bom! Artigo muito interessante, que retrata na perfeição a realidade do actual “sistema” eléctrico em Áfrina. Parabéns!

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